sábado, 21 de dezembro de 2013

Natal na ponte


Era noite de natal. Lá de cima ele podia ver as luzes da cidade, o colorido piscante nos prédios, na imensa roda gigante e mesmo que fosse madrugada, o som das canções natalinas alegres ao longe.
Sentia o vento batendo em seu rosto, frio, penetrando nos poros enquanto suas pernas se balançavam no nada ao som das canções  que verberavam. Abaixo de si, encantou-se por momentos pelas luzes refletidas nas águas do rio profundo, até mesmo a luz, era como se lá embaixo, fosse lá em cima. Como se pular fosse o caminho mais rápido para alcançar o alto, a lua, as estrelas... Alcançar uma paz, talvez, essa fosse toda a questão do momento.
Ele não sabia qual era o distância exata, não precisava de tais cálculos. Apenas sabia que era suficiente.
Tudo era era suficiente.
Até mesmo a vida.
Riu com o pensamento e suspirou olhando o céu, recebendo mais do vento. No teatro soava o coral, perto da ponte.
- É o mesmo teatro que sempre íamos.
A voz o fez olhar para o lado, um pouco atrás de si. Lá estava ela, os cabelos ruivos embaixo do gorro, o casaco verde a protegendo do frio da madrugada. Sempre amara aquelas cores nela. Verde e vermelho. Sorriu mínimo e virou para frente voltando a olhar para o céu.
- Sempre o quebra-nozes no natal. Sempre o mesmo.
- Você sempre odiou. -Ela falou divertida, subindo por entre as grades e sentando a seu lado. - E depois um café da starburs, um passeio pelas ruas, uma passada nas boates para pesquisa antropológica...
- O natal perfeito. - ele falou malancólico. Os natais eram as datas piores para os dois, talvez por isso criassem essa rotina maluca. Ele odiava natais, perdera os pais no natal de seus dez anos. Dois depois encontrara ela, no natal de seus doze anos, em que ela perdera a irmã. A encontrara naquela mesma roda gigante que agora viam ao longe, do outro lado da ponte, quando ela fugira de casa. E depois disso, os natais passaram a ser sua pior e melhor data. Ela sempre chorava nos natais, e ele sempre a abraçava por isso. Ela sempre chorava, pelos dois, por que ele não se permitia. Então depois iam para o teatro zombar do espírito natalino, e terminavam a noite em boates arranjando confusão, em um karaokê barato, ou em um motel beira de estrada.
Eram melhores amigos, que se viam apenas no natal, não importa em que parte do mundo estivessem, sempre se viam no natal. No natal eram amigos, amantes, desgraçados, malucos e o que pudessem. Eram psicólogos um do outro, e eram tudo o que tinham. Uma magia que durava uma noite, até se despedirem no dia seguinte para suas vidas separadas.
-  Sabe, eu sempre odiei quando as pessoas me mandavam ser forte, mas falavam para não chorar, não faz sentido. Pessoas são tão estúpidas as vezes! - ela falou em sua voz alta, como sempre mudando de assunto tão rápido como mudava de humor. Isso sempre o deixava confuso. As ideias dela pareciam se conectar em uma velocidade e direção que poucos podiam captar, e que ele só conseguia por todos esses anos. Muitos diziam que ela era um livro aberto, mas só ele sabia a verdade. Que ela guardava quem ela era de verdade depois de suas tiradas ironicas e uma expansividade com todos. Ela escondia por uma capa de chumbo, um coração cheio de furos, do mesmo modo que ele escondia o seu na sua fiel pose de indiferença.
- Eu penso que chorar as vezes é provar força. - falou pensativo e ela riu. A voz dele nunca mudava esse tom monótono. Era por vezes irritante.
- Então você é mais fraco que eu. - ela concluiu. - Senhor não sinto nada.
- Talvez... - deu de ombros, gesto que quase o desequilibrou. - As vezes o bom mesmo é deixar vazar, explodir, e depois só recolher os destroços. Não é o que fazemos todo o natal? Se permitir por uma noite apenas...
Ela assentiu e se olharam longamente. O rosto dela corado pelo frio, refletindo a luz da cidade e da lua, tornando-a irreal demais. Agarrou sua mão gelada e ficaram assim, olhando para o nada.
- Nosso ultimo natal. - Ela murmurou e ficaram assim, juntos, em algum ponto do tempo. Mais acima, ouvia-se o barulho da sirena da ambulância, constrastando com todo o som natalino. Era a última afronta dos dois ao natal e riram com isso, saltando para o vazio, mas não se ouviu som algum dos corpos.
Por que acima, na ponte, estava o carro virado onde os paramédicos removiam dois corpos entre os destroços do acidente. Um homem moreno de cabelos escuros, uma garota ruiva que era coberta pela lona. Algumas pessoas faziam o sinal da cruz, outras falavam sobre o acidente. Mas logo esqueceriam, era natal no fim das contas.
No teatro, ouviu-se as palmas para o espetáculo, e talvez para eles.
Ele perdeu seus pais no natal.
Ela perdeu sua irmã.
Eles se encontravam todo ano no natal. Riam juntos, zombavam juntos, e caim juntos dos abismos em si mesmos, ora se erguendo, ora se afundando mais.
E agora iam juntos no natal. Deixando uma xícara de café frio na mesa e um livro que ela lia marcado na página 107 na cabeceira da cama, além de gavetas para serem remexidas, e memórias que não diziam nada. Afinal tudo o que eram de fato, seus anjos e demônios, se iam um com o outro.

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