segunda-feira, 2 de março de 2020

Adeus, prodígio



Um olá para todos os prodígios que nunca se tornaram gênios.
Do fundo do coração, eu te entendo.
Eu entendo todo o peso do que poderia ter sido. Como é olhar para trás e ver todo aquele potencial perdido. De pensar no seu antigo eu, com olhos brilhantes e um futuro tão glamouroso pela frente e se achar tão pequeno agora: Um adulto medíocre e perdido, tentando sobreviver no campo de batalha na vida.
Como foi perceber que sempre foi o peixe maior dentro de uma poça? Como foi chegar no mar e tentar não ser engolido?
Verdade, eu te sinto!
Eu sinto quando penso em todos os familiares e professores que diziam o quanto você era especial e iria longe, só para hoje achar que mal conseguiu virar a esquina na vida que queria.
Eu sinto quando penso em toda a expectativa quebrada de todos, mas principalmente a de si mesmo. Todas as ideias que morreram ainda no berço, os sonhos que não eram nada mais que mariposas: lindas, esvoaçantes, mas de curta vida.
Amigo, eu também gastei todo o meu combustível na partida e fiquei na mão no meio do caminho. Me apressei e agora estou seu fôlego e tão exausta. Eu lembro que tinha um plano, mas com tantos desvios de repente ele não faz mais sentido algum e agora só quero chegar a qualquer lugar.
Veja, eu era uma criança incrível, tudo bem? Hoje me sinto só um adulto patético em toda a minha normalidade. Eu também penso em tudo que poderia ser, se todo esse potencial ainda está aqui dentro, coberto e sufocado por tantas dúvidas e exaustão e medo de tudo.
Um alô para todo mundo que se sentia especial e queria mudar o mundo e hoje sente dificuldades e se acha incapaz de sobreviver sozinho. Que não consegue nem se salvar e há certos dias que espera que o mundo queime, porque sentir dói demais. Se importar dói demais. Que teve que desistir de tanta coisa, porque os obstáculos se tornaram impossíveis de ultrapassar. 
Para todo mundo que sente que teria vergonha de encarar a criança que foi no espelho e dizer "Oh, não deu. Foi mal."  Para todo mundo que acha que se tornou o tipo de adulto que sua criança de antes odiaria e acharia chato. Para todo mundo que queria desbravar a vida e tem certos dias que nem sabe o que está mais fazendo aqui.
Eu também fujo das medalhas na parede da casa e me enrolo com perguntas que quando criança poderia responder, vejo os enredos das coisas que criava e penso que era muito mais inteligente e brilhante do que sou agora.
Eu também penso em como era menos rude, menos cínica, mais empática, com menos cicatrizes e mais propensão a perdoar e seguir em frente, enquanto hoje só sufoco meu medo e minha amargura em memes, humor negro e escolhas erradas.
Eu era melhor, quebrei a ordem de que tudo evolui com um tempo: algumas coisas só deterioram. Eu sou apenas uma sombra do que poderia ter sido. Todo o peso da expectativa me colocou no chão, se tornou demais para o que aquelas asas podiam suportar.
E agora cá estou, rastejando nos meus melhores dias. E isso, meu amigo, é o pior pesadelo para quem um dia já conseguiu voar.
Eu era uma criança prodígio, hoje sou um jovem adulto meramente funcional.
Bem-vindo ao clube.
Lorem K Morais
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Pseudópodes

                                                         
Lorem K Morais
Eu disse que era assexual,
Ele me perguntou se eu era uma ameba.
Com uma risada alta de ‘você não sabe o que fala.’
Eu observei os carros passarem da janela enquanto ele falava e falava.
Talvez seja uma ameba, um parasita que pode mudar de forma. 
Estou sempre mudando de forma, me encaixando em cada espaço que me derem.
Estou lá, até me percebam e me expurguem. 
Não é fácil, essa vida de ameba. 
“Vem cá, mas me dá um beijo.”
Amebas não beijam. 
Amebas observam de longe e se locomovem com seus pseudópodes.
Ameba imagina beijar ele como beijar o espelho de um banheiro,
troca de bactérias e frieza. 
“Não, não leve pelo lado pessoal.”
“Vem cá, deixa eu segurar sua mão suada por alguns segundos
E fingir que essa noite não é um trem descarrilhado.” 
Ameba pensa quem foi a primeira pessoa
Que teve a ideia de enfiar a língua na garganta da outra.
Deve ter sido uma situação engraçada. 
Ameba e ele pediram a conta em um silêncio desconfortável. 
Mais um expurgo de uma ameba.
Ao chegar em casa eu tive um pesadelo em que me dividia em duas.
E ela tomava todo o meu café e não me sobrava nada. 

domingo, 1 de dezembro de 2019

Os males dessa idade

Eu gosto muito de conversar com criança ou com gente idosa, mas não sei o que falar direito com gente da minha idade.
Parece que eles fazem parte de um clube do qual não tenho inscrição. Perdi a fila para fazer.
Eu fico por lá, ouvindo, sem saber direito o que dizer. E quando falo, sempre parece algo estranho.
"- Tu é velha demais para a idade, Lorem. Parece que tá no fim dos dias."
"- Tu não cresceu ainda não, Lorem? Como se anima com coisa de pirralho."
Talvez esteja tudo bem ser assim. De um dia querer pular na piscina de bolinha com meus sobrinhos e ficar maravilhada com a imaginação fantástica deles, ou apreciar um cafezinho conversando sobre a vivência do senhor da banca, na tranquilidade.
Não me importo mais de ser a estranha que só ouve por não saber o que dizer. Aprendi a ser uma boa ouvinte ao longo dos anos.
Me acostumei a ser jovem demais para ser tão velha e velha demais para ser tão criança.

Lorem Morais

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O quadro e a parede



Para os que me perguntam - repetidamente - sobre meus relacionamentos (a ausência de um na verdade).

“As pessoas vão a sua casa e perguntam porque você não tem um quadro na sua parede. Afinal, toda parede precisa de um quadro. Sem um ela fica vazia, fica estranha. Não são aceitas paredes sem quadros.
Você gosta da sua parede sem quadros, acha que ela fica bonita sem um. Com espaço, limpa, descomplicada.
Ainda assim você vai para uma exposição de arte. E durante sua visita, você consegue admirar a beleza dos quadros. Suas cores, suas formas, suas vibrações. Você fala o quanto eles são belos para a pessoa ao lado, pergunta-se o que o criador pensou naquele momento. No entanto, quando pensa no quadro na parede da sua casa, você percebe que por mais belo que ele seja, não combina com a pintura ou com os móveis. 
Não...não exatamente com a pintura e os móveis, é um belo quadro, você pode mudar o ambiente por ele, se quiser. Na verdade o quadro não combina com você.  Você não sente vontade de levá-lo.
Você vai a outras galerias, buscando aquele quadro que vai combinar com sua parede, com você. Nunca encontra. Vibrante demais, obscuro demais. Esse outro você teria que mudar toda a casa que você adora. Esse outro ocuparia espaço demais.
Há uma parte de você que admira a beleza deles, mas é uma beleza sem significado realmente. E você não quer algo sem significado na parede da sua casa, que você tanto gosta.
No fim você volta para casa sem quadro algum. Abre a porta, joga as chaves na mesa, encara sua parede e no que as pessoas veem vazio, para você há um espaço em branco repleto de possibilidades. Você gosta de pensar olhando para aquela parede. Ela combina com sua personalidade. É sua parede. Você faz o que quiser com ela.
Se não quer um quadro, não vai colocar lá só para que os outros sintam-se mais à vontade quando lhe visitam. Não faz sentido nenhum.
Sua parede.”

 Lorem Morais

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terça-feira, 26 de novembro de 2019

O crime cometido contra o tempo



Lorem Morais
Desperdiçar o tempo é algo que não tem volta, que quando passa não tem remédio para trazer de volta.
Quando eu tinha meus 14, 15 anos, não entendia bem esse conceito. Como eu entenderia? Quando se é jovem você acha que vai viver para sempre, ou ainda, que as pessoas que você se importa vão sempre estar por perto.
Depois que você entende que não é assim funciona, é obrigado a entender a finitude e, assim, a importância de apreciar as pessoas.
  Apreciar de verdade, em cada pequena coisa. Se você tiver sorte você aprende isso antes que elas sumam - sejam tiradas - de perto de você. Aquele abraço de boa noite, aquelas conversas ao redor da mesa. 
Aquelas cobranças "chatas", aquelas intimações de avisar se chegou vivo em casa. Aquelas pequenas coisas que você por vezes nem nota, mas que vai sentir falta quando elas sumirem de repente.
O quão triste é passar a vida toda não apreciando isso, achando que você terá tempo?Quando tudo se acalmar.Quando as provas acabarem.
Quando chegarem aquelas férias.
Quando tiver tempo.
Sempre tempo.
Uma verdade: Você tem tempo agora. Até que de repente você não tem mais.
Outra verdade: Eu queria ainda ter tempo com todas as outras pessoas que perdi. E eu perdi muitos.
Mais uma verdade: Ás vezes você perde as pessoas para a morte, em outras você perde elas para a vida vida. Nos últimos anos eu venho perdendo para os dois
.Eu não sei quando eu percebi finalmente aquele relógio em cima da cabeça das pessoas.  Quando eu passei a entender que as pessoas com quem me importava não eram imortais? Ou que se cansam de esperar por mim enquanto eu esperava por Deus sabe o quê?
 Isso é importante. Entender sobre o peso das coisas que você não fala, ou o tempo que você perde não apreciando nada, só aguardando o tempo certo.
 Como você pode esperar o tempo certo enquanto perde o agora?
Perder tempo é um crime. Um desperdício de algo que muitos dariam tudo para ter de volta. 
Então não percam tempo, não esperem pelo tempo para curar nada, não desperdicem algo que é tão limitado. Não cometam esse crime. 
O tempo não cura, o tempo não espera, o tempo apenas passa.  

Inkspired


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Leme


Sempre estive à deriva,
flutuando sem rumo, guiada por um vento que ninguém mais parecia sentir.
Um dia encontrei minha âncora e pela primeira vez me senti firme no lugar.
Parecia o certo, parecia concreto.
Até eu sentir falta do vento.
Até eu perceber que o que me firmava, me prendia.
O que me assegurava, me segurava.
Era doloroso sentir o vento e não poder o seguir.
Eu nunca precisei de uma âncora, percebi.
Eu precisava de alguém que me ajudasse a navegar. 

Lorem Krsna

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Em algum universo

  Ás vezes eu tenho essa sensação estranha que estou vivendo uma vida que não é minha. 
 Tipo, que em algum momento eu virei errado a esquina, e alguma outra eu que virou a certa está na vida que devia ser minha, em algum universo.
 Eu olho para trás e não me reconheço, e por vezes eu nem sei se sou uma pessoa melhor ou pior do que antes, porque estou diferente demais para comparar.
 Eu fico pensando em loop nas coisas que podia ter feito. 
 E não adianta pensar em nada disso, porque não tem volta, é minha politica não esquentar com coisas que não posso mudar. Ainda assim eu me pego pensando.
 Pensando nessa eu, em algum universo, que pode estar vivendo essa vida diferente. Talvez melhor, talvez pior. 
 Talvez pensando a mesma coisa. 
[eis o motivo da minha insônia] 
 Lorem Krsna

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