quarta-feira, 23 de julho de 2014

Nova Temporada



A  poeira vai se acumulando pelos cantos, as roupas nas gavetas e os sapatos vão rasgando o solado. E o tempo vai passando, as pessoas indo embora, outras vem chegando. Amigos vem e vão, a gente vai vivendo o "era uma vez" e o "felizes para sempre" diversas vezes na vida. Nessa vida de contos, todos com fim e começo, que duram dias, meses, anos ou apenas uma noite. Nota-se a passagem do tempo não pelas roupas que não cabem mais, mas sim os pensamentos que não tem mais espaço, o gostar que não é gostar, a mudança do que antes nos causava riso ou nos levava as lágrimas. Conceitos se perdem. Pessoas se afastam. A memória do computador se enche de fotografias, e a do celular de contatos. O seu mapa se enche de pontos vermelhos, e suas lembranças de rostos, de momentos. Sua lista de momentos vergonhosos vai aumentando, assim como a de amigos.
O tempo deixa suas marcas, não em dias, meses e anos. Mas em quedas, balanços e corridas. No que mudou, no que se foi, no que chegou. De repente você da um salto e muda, vai deixando muito para trás, carregando um tanto na bagagem. Mas bem que nossa mala mais preciosa ninguém pode nos tirar, não tem preço para ser cobrado no embarque, e nem depende da memória da camera ou celular: São as lembranças, bem reunidinhas, guardadas na nossa cabeça.
Que venha uma nova fase. Que venha a nova temporada. 

Lorem Krsna

segunda-feira, 26 de maio de 2014

fragmentos



Ninguém sai inteiro da vida. 
Se a gente pensar bem, no meio do caminho, no bolso das pessoas que passam por nossa vida, sempre se vão os nossos pedaços. 
Somos todos fragmentados, desde o primeiro momento que aprendemos a sentir e nos doar, e a perceber que nem sempre as pessoas  ficam.
 Em uma esquina ou outra os caminhos se partem, e  com eles  vão ficando nossos pedaços.
 E nem adianta tentar se remontar: mesmo que eles voltem, os pedaços não cabem mais na gente, as bordas não se encaixam mais. 

Por vezes, isso nós faz sentir vazios. Daquele tipo meio estranho de sensação, como se estivéssemos cheios de buracos onde o vento sopra quando passa.
Em outras vezes, nos sentimos mais leves, de uma forma estranha.

E sobre essas pessoas que tem  os nossos pedaços, elas tem uma parte da gente com elas. Um pedaço de quem fomos um dia.
Para alguém, em algum momento, somos uma história para contar. 


Lorem Krsna

segunda-feira, 21 de abril de 2014

...




Você vai chorar, vai sorrir, vai chorar de sorrir, sorrir para não chorar... e o mundo vai continuar girando...
Então apenas entre na roda amor, ficar de fora não é opção. 
Ficar de longe é triste demais. 
Chore, sorria, mas não pare, continue andando, continue evoluindo, continue girando, porque quando parar de vez, tem que ter valido a pena cada coisa. 
Levante com ajuda ou se erga sozinha, sorria para alguém, ou então por si mesmo. 
Chore por sua alma, ou pela tristeza do mundo. 
Faça valer, faça sentir, cada dor, cada alegria. 
Faça sentido em cada um que passa na sua vida, os que vão, os que ficam, e os que se vão mas ficam... Só não pare amor, isso nunca! 
Pense andando, chore andando, sorria andando. 
Só não fique para trás. 
Existir sem ter vivido, é triste demais. 

Lorem Krsna

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Pais e seus esboços

By Lorem Krsna



É difícil ser pai e se tornar responsável por outra pessoa além de si mesmo. Os seres humanos são por natureza egoístas, ser pai é uma quebra desse ciclo e estabelecer um principio que parece simples, mas não é de nenhuma forma: pensar em alguém antes de pensar em si. 
Eu acredito que seja como entregarem para você uma tela em branco e pinceis e tinta. O que você pintar de início, pode sim definir o caminho que o desenho irá tomar, sua forma final, mesmo que a continuação do mesmo seja tirado de suas mãos. Isso explica por que o esboço errado, mesmo com tantas tentativas de conserto ao longo da vida, por vezes acabam deixando marcas permanentes em um quadro. É muita responsabilidade, não é algo que se tente fazer levianamente.
Há pessoas, eu noto as vezes, que nasceram para ser pais. Simples assim. Mesmo sem perceber, eles fazem tudo certo, mesmo com os pequenos desvios. Digo isso pois, mesmo com exceções a regra (que tem muitas), por vezes podemos ver o reflexo dos pais no que os filhos se tornaram - a obra completa que iniciou no esboço suave. Assim como existem pais que se põem no principio que filhos são brinquedos, robôs, ou então um "mini-eu", em que podem extrapolar todas as frustrações vividas, de coisas que não conseguiram ser, tentando compor toda uma obra de acordo com a sua corrigindo imperfeições. Um recado: a obra-completa não fica a seu cabo. O pintor de tudo isso, no fim de tudo, é a vida. Cada pessoa, é um quadro diferente, que encontram artistas diferentes. Filhos não são bonecos que são  dados para atingir uma perfeição, ou mesmo um produto de uma vida frustrada. Se você pensa dessa forma, espero de verdade que seus filhos encontrem bons artistas na vida. Você, lamento dizer, não sabe pintar. De outra forma, pais maravilhosos, fazem bons esboços, e a obra termina uma falha: isso não se pode prever. E por isso, ser pai é o "trabalho" mais incerto que existe. Você simplesmente entrega sua vida, mas do que cuida de uma. Você  tem que expor suas falhas, e você tem que tentar ser o melhor, pois querendo ou não, você se torna uma referência, por vezes daquilo que seu filho deveria ser, e em muitos casos, daquilo que ele nunca vai se tornar. Como eu disse, você não é e nunca será o artista absoluto dessa obra chamada "filho".
Eu fui um esboço de meus pais, mesmo que esteja me tornando uma obra tão diferente, assim como meus irmãos são de mim e deles, todos nós temos traços deles, detalhes que no fim compõem um todo. Eu tive sorte: meus pais foram bons artistas. Eles guiaram a família como pintores natos, ou mesmo como maestros regendo uma orquestra. Suavemente, por vezes, sutilmente. Não criaram robôs ou pequenas sombras. Eu não tive sempre tudo o que eu queria, e assim aprendi um principio importante de inicio: meios de correr atrás. A vida me deu limões, meus pais me deram o principio de como cuidar de limoeiros. Hoje eu tenho limonada a vontade. Parece bobo, mas é verdade. Isso que eu tenho de mais importante que nossos pais deram a meus irmãos e a mim: opções e visão. Nós fomos amados, instruídos. Nós ouvimos o "não" e o "você consegue". Eu não fui empurrada, eu não fui puxada. Eu fui muito habilmente conduzida até conseguir andar sozinha. Bem, tem funcionado. Meus irmãos hoje são obras muito lindas, e já fazem seus esboços, e espero que sejam tão bom artistas quanto nossos pais foram. A vida vai tratar de completar com tinta cada espaço, como vem completando a mim.
Por último, o tão fabuloso no trabalho de ser pai, é que no final, você entrega aquilo que você cuidou para a vida. Acredito que seja semelhante ao sentimento de pegar seu esboço, fazer uma aviãozinho e jogar pela janela...Deve ser isso. Mas na verdade, a realidade é que você entrega o principio da sua obra para ser preenchida, escolher suas próprias cores e tons. É admitir e confiar, mesmo sabendo que o mundo pode ser um devorador de filhos cruel, eis uma simples realidade: seu bebê vai ter que ir embora, apenas deixe a porta aberta para ele buscar abrigo e conselhos quando precisar. Pais não pintam para si mesmos, eles fazem obras para a vida, para serem apreciados pelos outros. E mais do que isso, eles constroem artistas, que farão suas próprias obras.   
Eu não sei que tipo de artista me tornarei, ou mesmo os tons exatos de quem sou, mas eu fui presenteada por meus pai com cores maravilhosas: o amor, a bondade, a firmeza e a confiança. Eu cresci vendo o amor supremo de minha mãe pela família. Como uma pequena raposa arisca e amorosa, que seria capaz de ariscar tudo pelos filhotes, para protegê-los, atraindo qualquer tiro de caça para si. Eu cresci sobre os olhos bondosos do meu pai, e com ele tento aprender coisas como tolerância e clareza. Eu tive sorte, nunca deixo de repetir. Mesmo minhas falhas, meus tons obscuros, nada veio deles. Eu fui construída com amor sem amarras e sem ser sufocada. Agora, eu estou fluindo. Eu sou o aviãozinho jogado pela janela com muito trabalho, e estou em saindo muito bem, obrigada.
Espero de verdade, que quando for preciso, eu seja tão boa artista quanto meus pais foram.  

Lorem Krsna.
P.S: Para meu pai, o melhor artista que conheço, meus irmãos, que estão aprendendo esse ofício, e minha mãe, que nasceu para pintar, que ela esteja bem onde quer que esteja agora.
E para todos os pais e mães por aí: boa sorte, vão precisar.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Sete meses, pensar, mudar.



"Cogito Ergo Sum."  Uma vez meu irmão me perguntou como um ser que não pensa, poderia acreditar na própria existência. Era uma discussão  sobre legados, sobre influenciar o outro a pensar de maneira que uma mente, uma vez aberta para o mundo na sua visão mais verdadeira e critica, ela nunca retornaria a reclusão e a cegueira. E claro que Descartes foi metido no meio. Mas isso é apenas a introdução de tudo o que vem acontecendo ultimamente. 
Eu ando tendo muito tempo para pensar, coisa que estava evitando, ao menos eu agora vejo o quanto estava evitando. Por que pensar me levaria não a cogitar sobre minha existência - isso eu já fiz e refiz e não cheguei a nenhuma conclusão. - mas a notar minhas mudanças. E só então realizei o quanto mudanças são assustadoras. E ainda assim, aqui estou eu, longe de casa - do outro lado do mundo, literalmente- , mudando o todo momento. Eu ando mesmo em contato com mudanças, internas e externas a todo instante, e isso por vezes me fascina, por vezes me assusta. O processo de se recriar é assustador, e Deus sabe como por vezes é complicado demais. Assim como Deus sabe que eu esperava já isso, mas não assim. Foi como procurar uma brisa, talvez uma tempestade, e me veio um furacão. Eu voei para longe, mal sabendo uma lingua local, e muito menos sobre o que me esperava. E ganhei muito mais do que cogitei. Era para ser um intercâmbio, um ano e meio, ampliar conhecimentos, conhecer novos lugares. E  aqui estou eu, conhecendo muito mais sobre mim mesma. Sobre mudanças, sobre perdas e ganhos. E no fim, quando se vê, isso resume a vida: mudar, perder, ganhar. E claro, se adaptar. Eu ando aprendendo sobre solidão, como apreciá-la. Como por vezes tem coisas que você grita, tem coisas que você cala e supera. Eu ando aprendendo, em contraponto, o quanto você precisa das pessoas. 
E principalmente, eu venho aprendendo, que não sou fraca. Há vários significados para isso "não sou fraca". Eu aguento o tranco, eu suporto muito mais peso do que eu pensei. Eu passei algumas etapas, eu já deixei algumas coisas para trás.  
Transformação. Não falo sobre questionamentos, ou sobre os grandes "Ses" na minha vida. E nem de meus arrependimentos , um ou outro ainda doem o bastante para que em certos dias eu duvide de mim mesma, que a vida  se mostre não como mãe, mas como madrasta. Por vezes, eu me sinto ferida por muitas coisas, e eu sei que tantas outras levam tempo. Talvez uma vida inteira. Nem toda mudança trás, as vezes ela leva. Leva tempo, leva sonhos, planos, e leva pessoas que a gente ama, seja para longe em continentes, seja para longe em sentimentos, ou seja para a morte - eis a grande ferida, o golpe pior. E ela trás. Novas chances, um novo dia, um objetivo para se superar, para conhecer, para SE conhecer. Muitas vezes para se entender, mesmo percebendo que isso te faz solitário. E apreciar a solidão, te faz entender mais ainda sobre muitos aspectos que você ignorava: como a importância do silêncio e da voz, de um abraço e de manter distância. De uma ligação, de um "eu te amo", e do real sentido de perguntar um "você está bem?" e receber a verdade para isso. 
Todas essas pequenas coisas, que são grandes. Apenas leves pinceladas, e quando se nota, toda a obra mudou quase sem ser percebida pelos demais. 
Pensar, leva a existir. E muitas vezes a mudar. 
Foram mesmo apenas sete meses? 
Lorem Krsna

domingo, 13 de abril de 2014

Among People

By Lorem Krsna


"Where are the people?" resumed the little prince at last. "It's a little lonely in the desert..."
"It is lonely when you're among people, too," said the snake.

The Little Prince, Chapter XVII

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Já perdi minha graça faz tempo.

As pessoas superestimam demais a "primeira vez" de todas as coisas.
São as últimas vezes que me tiram o sono.
Aquelas que você nunca sabe que foi a última vez, até que uma próxima não vem. Como ver uma silhueta sumindo na esquina, e ela não voltar mais. Ou aquela ultima ligação que você nem sabia que era a última.
O que você faria se soubesse que seria a última palavra a ser dita?
Não é a introdução que me incomoda, mas a conclusão, o ponto final abrupto, sem volta e sem remédio. Você nunca  sabe quando o fim vai ser fim mesmo. De repente a cortina fecha, o espetáculo acaba, e você nem vê o público indo embora. Você não disse sua frase de efeito, você não falou o que pensou que fosse óbvio. Você não sabia que a "saideira" era a saideira mesmo, ou que não teria um último cafezinho na esquina discutindo bobagens.
O xeque-mate vem sem você perceber. Quando vê, o jogo acabou, e ele para você nem havia começado.
Eu lembro bem da nossa última ligação, e a gente se despediu sem saber que era a última ligação, que não teria uma próxima vez. Eu vejo bem agora que isso acontece o tempo todo na vida.
Você pode ver bem quando algo começa, onde se inicia o primeiro parágrafo das coisas, mas o último, ah o último pode ser 200 páginas depois, 20, ou até do outro lado da folha. Ele vem com o fim de ciclo, de uma temporada, ou um acidente, um sujeito que bebeu demais,um assalto na esquina, ou simplesmente um coração que para de uma hora para outra.
Assim, você se vê obrigado a aprender a conjugar verbos no passado todo o tempo, a usar as expressões como "último", "final", "em conclusão". E nem sempre a gente consegue falar o "adeus", o "eu te amo" ou coisas assim, dessa forma. Eles ficam nas entrelinhas detestáveis do fim que você não sabia que era fim, da conclusão sem coerência que você pensou que apenas corpo do texto. Eles ficam no "vou te ligar próxima semana", que não vem, ou "fica bem." 
Chegou um tempo , que eu até achei graça nessas conclusões desconjuntadas. Mas sinceramente, eu já perdi minha graça faz tempo.

Lorem Krsna (Trecho de Da tua retina.)


P.S : Estou terminando de fazer os últimos capítulos. Já dá para se ter uma ideia pelos trechos que não é a estória mais feliz do mundo (apesar da pitada de humor negro), mas com certeza foi a que mais tive orgulho de escrever.

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