quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Um tudo do todo

 “Nós nascemos para dizer adeus, mas nunca aprendemos como.” 

Em um momento abrupto de clareza, um dia eu disse essa frase para uma pessoa querida que havia perdido algo precioso, sem saber que um tempo depois estaria me despedindo dela também. Eu não havia aprendido a dizer adeus também, e não acho que um dia eu vá.

O tempo é a grandeza física mais traiçoeira que existe.

Eu olho para os cabelos brancos surgindo na cabeça das pessoas que mais amo e penso que debaixo de tudo isso (dos sorrisos, das risadas, dos ‘eu te amos’ e ‘chegou bem em casa’) estão as células com seu telômeros, se encurtando a cada reprodução.

A areia está caindo na ampulheta, sem que eu possa segurá-la (e ainda assim eu quero, quero os guardar aqui comigo, os esconder do tempo. Reverter os cabelos brancos e as rugas de cada um deles, ignorando que a cada dia vejo no espelho uma pessoa mais estranha.).

E enquanto isso o tempo passa e passa (e não cura, só passa).

Nós nascemos para dizer um adeus, sempre que dizemos um olá.

É o preço de amar as pessoas.    

Lorem K Morais


sábado, 1 de maio de 2021

Livro Crocodilo de Javier Arancibia Contreras


 Sobre a morte e luto

"Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento."

Foi assim que começou esse livro. Já ali, na primeira frase. E foi essa primeira frase que me fez continuar a ler, e que bom que esse livro veio parar nas minhas mãos!

Veja só, eu tenho certo fascínio sobre os livros que retratam o luto, que mostram aquela verdade que de vez em quando a gente esquece: a morte acontece para quem fica para trás.

Ainda mais em casos como esse; na forma como mostra a família de alguém que cometeu suicídio, aquela busca incessante pela razão, porque tem que ter uma razão, certo? Como admitir que na verdade não se conhecia tão bem aquela pessoa que você amava ao ponto que não ver o sofrimento dela? Esse livro entrega isso. A busca de um pai pelo o porquê, como uma maneira de amenizar a dor da perda, apenas para perceber que ele começava a conhecer seu filho melhor na morte do que conheceu em vida.

"A morte, assim como a vida, não tem qualquer explicação. Tudo o que está vivo é absurdo. Tudo o que morre é consequência de ter estado vivo. E só o que resta é a jornada de cada um."

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Livro As desventuras de Arthur Less

 


O fim das coisas
Essa não é uma história de amor, e nem li achando que fosse.
É um daqueles livros que acredito que vai ter um gosto diferente na boca, dependendo da idade de quem está lendo, do que já passou na vida. Sabe aquelas perguntas que você aí, que já passou da terceira década de vida fica se fazendo? Pois é.
Eu fiquei pensativa depois, principalmente sobre a importância que se dá ao fim das coisas de uma forma errada. De como a gente deixa de aproveitar porque vai acabar, quando deveria ser o contrário. Só por isso já valeria a pena a leitura, mas o livro entrega bem mais.
E você se apaixona por Arthur, como todo mundo parece se apaixonar. Vai se descobrindo com ele, vai se vendo nele, nesse personagem tragicômico, nesse reflexo do que muita gente vai ser ver um dia, se já não se viu ou está se vendo.
Ah, mas talvez isso seja uma história de amor afinal: de se amar.
Então, eu recomendo. Talvez esse livro não seja o que você espera, mas o que você precisa.
P.S. E a felicidade? Ela não é uma bobagem.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

Livro Os humanos

 

Sua vida tem 25 mil dias. Trate de lembrar-se de alguns deles

Esse livro não era o que eu esperava. O que foi erro meu, realmente. Eu já li outros livros de Matt Haig, deveria saber o que estava me esperando quando começasse a ler.

Eu demorei para escrever essa resenha por me sentir incapaz de expressar com exatidão o que ele fez comigo, e para ser sincera, ainda não sei se consigo. Porque esse livro foi o tipo de leitura que consegui a façanha de ler no momento exato em que precisava. Os conselhos para Gulliver (vocês vão ver) foram coisas que eu já sabia, mas que só alguém de fora poderia enxergar e dar a importância necessária para falar o óbvio que tantas vezes esquecemos. É preciso se afastar para ver a grande figura, e nada mais afastado do que um alien, não é verdade?

Deve ser incrível conseguir ver o que temos com os olhos de um turista, porque muitas vezes não valorizamos o que temos, ou vemos nossas falhas. E por isso esse livro é tão maravilhoso: ele nos mostra o quanto podemos ser ridículos, que não somos únicos, ao mesmo tempo que fala sobre a completa impossibilidade que foi nossa criação. E o quanto isso é finito ou, como diz Ari, somos "Apenas uma mijada no meio da madrugada." Porém, é isso que faz a vida ser especial, é por isso que não podemos a desperdiçar.

É nossa mortalidade que faz necessário se aproveitar cada segundo.

Somos tão insignificantes como uma impossibilidade, e um não exclui o outro.

Então, é. Leiam esse livro. Principalmente nesse momento, em que precisamos desses conselhos mais do que nunca.

P.S: Quando alguém aprende a amar em razão de um cachorro, sabemos que não é má individuo.

Link do Amazon, para quem se interessar pelo livro.

Livro O fundo é apenas o começo

                                                               

 


 O ponto mais profunda do planeta
Verdade seja dita, inicialmente esse livro me deixou confusa, já que ele é escrito pela perspectiva de alguém que aos poucos vai entrando em um surto. No entanto, eventualmente tudo faz sentido e a leitura se torna algo maravilhoso.
Sobre o tema, é muito raro encontrar um livro que trate sobre doença mental com tanto respeito e sensibilidade, por isso não me surpreendeu ao chegar ao final e descobrir que o autor tem experiência íntima com isso através do filho. Quem viveu no olho do furacão sabe como funciona.
Desde a familiaridade com a negação, a confusão, a procura de pistas que pudessem ter evitado algo irremediável. Mais que tudo, um trecho em especial ficou comigo, em que o personagem aponta como garotos mortos são postos em pedestais, mas garotos com doenças mentais são varridos para debaixo do tapete. É necessário mais visibilidade, e esse livro entrega isso.
Por fim, se você pensa em ler esse livro, eu recomendo demais que dê uma chance a ele, mesmo ficando confuso no começo, porque vale a pena. Esse livro mereceu cada prêmio que recebeu

Link da Amazon  para quem se interessar pelo livro.

sábado, 19 de setembro de 2020

Infecção

 A forma como eu assimilo um dano é muito louca.

Eu nunca processo de imediato, por isso a primeira reação sempre é muito fria, como se não tivesse sido nada. 

Dependendo do que for, eu consigo fazer o que for preciso no piloto automático até o pior da situação passar. 

Geralmente, só então, eu começo a processar. Sozinha.

E a primeira reação nunca é tristeza, mas ficar puta. Com raiva. Mas é aquela raiva silenciosa, a mais perigosa. E se não tem ninguém a quem direcionar a raiva, eu internalizo.

(Como resultado eu, no fundo, estou sempre com raiva. Tem raiva de anos que nunca deixei sair. Meus dentes se desgastam, meu músculo masseter hipertrofia, minha atm se fode. Sempre que um pouco daquilo sai, meu coração parece que vai sair pela boca. É tanta raiva que tem que sair de alguma forma. )

Chorar é a última parte do processo, mas é tão reprimido que passa em menos de um minuto e fica aquela sensação de que você começou a drenar um abscesso e parou no meio do caminho. Saiu um pouco da secreção, você sutura e manda para casa. Sem dreno, sem tirar tudo. Aquilo infesta dentro de vocês, deixa de ser local e vai invadindo outros tecidos. Sistematiza. 

Meu ciclo de dano sempre fica incompleto. 

Eu tenho a sensação que se for fazer terapia, que se um dia me abrirem para cuidar dessa infecção, eu vou me desmanchar em pus.


Lorem K Morais


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Ataque de pânico


Tem um corvo me seguindo na rua, sumindo na periferia na minha visão.
Agora entendo Edgar Allan Poe, agora entendo.
‘Oh filha, ontem pensei que iria morrer durante o sono,
Meu coração faltou parar.’
Não me preocupei tanto quanto deveria.
‘Oh filha, esqueci como é ser gente,
Talvez eu seja também um corvo
Sumindo na visão de todo mundo.’
‘Por que não respondeu a mensagem?’
‘Meu telefone está quebrado.’
Tudo para não dizer a verdade.
O quanto estou engasgada e sufocando.
O corvo me contou que vou morrer,
Não me preocupei tanto quanto deveria.
É possível se afogar em ar?
Eu não sabia até então.
Talvez seja um astronauta sem meu capacete,
A terra nunca foi minha casa.
Onde é minha casa?
Alguém está batendo na porta do banheiro, era 3 da madrugada
Agora já é manhã.
Perdi horas conversando com o corvo.
Eu não sabia que era possível se afogar fora da água,
Mas o corvo me contou que não é tão raro.
Ele também me disse que eu iria morrer
Não me preocupei tanto quanto deveria.


[Lorem K Morais]



terça-feira, 16 de junho de 2020

Catarse


Tem um monstro que mora debaixo da minha cama.
Ele nunca sai durante o dia, pois ele teme a luz mais do que tudo. Sempre que tento o convencer a sair, ele se retorce e geme, se encolhendo para o canto mais afastado da parede.
O monstro debaixo da minha cama está sempre sentindo alguma coisa. Há noites em que ele chora de forma copiosa, reclamando da minha apatia com seu sofrimento enquanto tento dormir.
"Saia daí então."
Seus olhos, vermelhos e chorosos me olham de forma acusatória.
Olhando assim, ele nem mesmo parece tão grande ou assustador.
Só quando ele rasteja para fora, se aproveitando do escuro, eu consigo ver quão grande ele é, o quanto ele cresceu nos últimos tempos.
No escuro, ele prospera.
O monstro debaixo da minha cama diz que está sempre com raiva, e é a raiva que o faz chorar. É um sentimento constante e sem direção, sem um alvo. Ela fez residência em seu corpo, como o monstro fez residência debaixo da minha cama.
Quando a raiva aflora eu não consigo dormir, tentando impedir que o monstro grite.
Eu abafo sua voz, o empurro para baixo da cama.
"Se não ficar quieto, eu te jogo para a luz."
Sempre funciona, ele sempre se cala.
Eu consigo ser muito cruel com meu monstro.
O monstro debaixo da minha cama está sempre procurando alguma coisa.
Ele fuça meu quarto no meio da noite, jogando os papéis da mesa e me atrapalhando quando tenho que estudar. Ele bebe meu café e se pendura nas paredes, me pedindo para contar mais uma vez aquela velha história, sobre como a culpa é minha sobre tudo.
O monstro debaixo da minha cama e eu temos uma relação estranha de amizade. Uma amizade abusiva, em que o chuto para debaixo da cama e ele grita todas as minhas culpas e fala todos os meus medos.
"Está tudo bem." Ele sorri. "Podemos falar disso no escuro, ninguém vai saber."
Ele muda de rostos, tentando me fazer chorar, mas é ele que sempre chora.
Eu não choro há anos, nem sei se consigo mais chorar. Mas o monstro insiste.
O monstro debaixo da minha cama tem piedade de mim, esses dias ele me pediu para o deixar sair na luz.
"Se você sair, você vai morrer."
"Eu sei, mas não tem mais espaço aqui embaixo. Você me deixou crescer demais."
Eu não quero deixar meu monstro ir.
O monstro debaixo da minha cama se arrastou para a luz. Sua raiva fazendo as paredes tremerem, seu choro encharcando o quarto, em um rastro pelo caminho.
Fascinada, eu o vejo se encolher, o seguindo pela porta.
A luz do sol faz meus olhos lacrimejarem, depois de muito tempo.
Eu tento lembrar se é a mesma sensação de chorar.
Finalmente o monstro consegue soltar sua raiva em um grito, antes de finalmente desaparecer.
Quando retorno para o quarto, ainda ouço o eco dos gritos.
Eles se parecem com os meus. 
Lorem K Morais
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Vinho barato e Nessun Dorma

Ei vida, me responde uma coisa. Ou duas ou três, esses dias sou só perguntas para você.
Encarecidamente gostaria de saber a razão de ignorar todos os meus planos.
Você faz o que bem entende, não é? Sua ordinária. Volta aqui com todos os meus sonhos!
Me responde vida, qual o seu jogo?
Olhando para os cacos de quem deveria ser no chão, eu me pergunto como tanta gente se espanta com a morte. A morte é previsível, ela sempre vem. Já você vida, ah você!
Essa imprevisibilidade coloca todos nós de joelhos. Você gosta de ver a gente de joelhos, não é vida?
Já dizia o velho ditado Iídiche: O homem planeja e Deus ri.
Você é assim, vida, você está sempre rindo de cada plano meu. Jogando na minha cara o quanto não tenho controle de nada, além de como reagir ao que faz comigo.
E pior de tudo vida, é que você só me fode e ainda assim não vou te largar.
Por que eu largaria? Você consegue ser doce também, quando bem quer. Tão misteriosa, me incitando o bastante para eu querer saber o que vem depois.
Você é um livro sem sinopse, vida, mas com uma capa tão bonita que não posso não te tirar de estante.
Oh vida, me explica uma coisa, que direito você tem de brincar assim comigo? Eu fechei meu coração, você veio lá e abriu ele com um soco. O quebrou inteiro. E agora como faço? Eu tento fechar ele de volta de todo jeito, mas você vem de novo e de novo, sempre enviando alguém para fazer seu trabalho sujo. Eu não tenho chance alguma, tenho?
Oh vida, me diz aqui, por que você sempre anda presenteando a morte com as pessoas que eu mais quero bem? Essa sua paixão pela morte só me fode. E enquanto isso, meu coração fica escancarado, aberto, onde você sempre vai cortando a sutura que acabei de fazer.
Você vê, vida, até meu linguajar ficou chulo, mas acho que temos intimidade. Aquela intimidade de amantes de longa data, que se amam e se odeiam e não conseguem se largar. Você já está me fodendo não é mesmo? Então posso ficar livre das barreiras de linguagem, sua linda canalha.
Noite passada eu deitei no chão da cozinha ouvindo Nessun Dorma. Uma garrafa do vinho mais barato na mão, tomando goles de gargalo enquanto te xingava, pensando em sobreviver por mais uma noite dessas incertezas. Eu odeio incertezas! Estou sempre querendo saber o final da história ainda na metade, sou assim, entende? Com você não tem isso, para saber se melhora ou piora, tenho que ficar até o final, ler cada palavra, aguentar cada plot twist.
Oh vida, veja só, escrevi isso embriagada, de álcool e de tristeza.
Hoje o sol nasceu e ele estava lindo, como se estivesse o vendo pela primeira vez.
Vida, sua desgraçada, eu odeio que nunca faz o que espero, mas ainda assim, estou aqui.
Vou tentar ver o copo meio cheio.
E depois beber ele. Um brinde a você, sua ordinária. 
Lorem K Morais
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segunda-feira, 2 de março de 2020

Adeus, prodígio



Um olá para todos os prodígios que nunca se tornaram gênios.
Do fundo do coração, eu te entendo.
Eu entendo todo o peso do que poderia ter sido. Como é olhar para trás e ver todo aquele potencial perdido. De pensar no seu antigo eu, com olhos brilhantes e um futuro tão glamouroso pela frente e se achar tão pequeno agora: Um adulto medíocre e perdido, tentando sobreviver no campo de batalha na vida.
Como foi perceber que sempre foi o peixe maior dentro de uma poça? Como foi chegar no mar e tentar não ser engolido?
Verdade, eu te sinto!
Eu sinto quando penso em todos os familiares e professores que diziam o quanto você era especial e iria longe, só para hoje achar que mal conseguiu virar a esquina na vida que queria.
Eu sinto quando penso em toda a expectativa quebrada de todos, mas principalmente a de si mesmo. Todas as ideias que morreram ainda no berço, os sonhos que não eram nada mais que mariposas: lindas, esvoaçantes, mas de curta vida.
Amigo, eu também gastei todo o meu combustível na partida e fiquei na mão no meio do caminho. Me apressei e agora estou seu fôlego e tão exausta. Eu lembro que tinha um plano, mas com tantos desvios de repente ele não faz mais sentido algum e agora só quero chegar a qualquer lugar.
Veja, eu era uma criança incrível, tudo bem? Hoje me sinto só um adulto patético em toda a minha normalidade. Eu também penso em tudo que poderia ser, se todo esse potencial ainda está aqui dentro, coberto e sufocado por tantas dúvidas e exaustão e medo de tudo.
Um alô para todo mundo que se sentia especial e queria mudar o mundo e hoje sente dificuldades e se acha incapaz de sobreviver sozinho. Que não consegue nem se salvar e há certos dias que espera que o mundo queime, porque sentir dói demais. Se importar dói demais. Que teve que desistir de tanta coisa, porque os obstáculos se tornaram impossíveis de ultrapassar. 
Para todo mundo que sente que teria vergonha de encarar a criança que foi no espelho e dizer "Oh, não deu. Foi mal."  Para todo mundo que acha que se tornou o tipo de adulto que sua criança de antes odiaria e acharia chato. Para todo mundo que queria desbravar a vida e tem certos dias que nem sabe o que está mais fazendo aqui.
Eu também fujo das medalhas na parede da casa e me enrolo com perguntas que quando criança poderia responder, vejo os enredos das coisas que criava e penso que era muito mais inteligente e brilhante do que sou agora.
Eu também penso em como era menos rude, menos cínica, mais empática, com menos cicatrizes e mais propensão a perdoar e seguir em frente, enquanto hoje só sufoco meu medo e minha amargura em memes, humor negro e escolhas erradas.
Eu era melhor, quebrei a ordem de que tudo evolui com um tempo: algumas coisas só deterioram. Eu sou apenas uma sombra do que poderia ter sido. Todo o peso da expectativa me colocou no chão, se tornou demais para o que aquelas asas podiam suportar.
E agora cá estou, rastejando nos meus melhores dias. E isso, meu amigo, é o pior pesadelo para quem um dia já conseguiu voar.
Eu era uma criança prodígio, hoje sou um jovem adulto meramente funcional.
Bem-vindo ao clube.
Lorem K Morais
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Pseudópodes

                                                         
Lorem K Morais
Eu disse que era assexual,
Ele me perguntou se eu era uma ameba.
Com uma risada alta de ‘você não sabe o que fala.’
Eu observei os carros passarem da janela enquanto ele falava e falava.
Talvez seja uma ameba, um parasita que pode mudar de forma. 
Estou sempre mudando de forma, me encaixando em cada espaço que me derem.
Estou lá, até me percebam e me expurguem. 
Não é fácil, essa vida de ameba. 
“Vem cá, mas me dá um beijo.”
Amebas não beijam. 
Amebas observam de longe e se locomovem com seus pseudópodes.
Ameba imagina beijar ele como beijar o espelho de um banheiro,
troca de bactérias e frieza. 
“Não, não leve pelo lado pessoal.”
“Vem cá, deixa eu segurar sua mão suada por alguns segundos
E fingir que essa noite não é um trem descarrilhado.” 
Ameba pensa quem foi a primeira pessoa
Que teve a ideia de enfiar a língua na garganta da outra.
Deve ter sido uma situação engraçada. 
Ameba e ele pediram a conta em um silêncio desconfortável. 
Mais um expurgo de uma ameba.
Ao chegar em casa eu tive um pesadelo em que me dividia em duas.
E ela tomava todo o meu café e não me sobrava nada. 

domingo, 1 de dezembro de 2019

Os males dessa idade

Eu gosto muito de conversar com criança ou com gente idosa, mas não sei o que falar direito com gente da minha idade.
Parece que eles fazem parte de um clube do qual não tenho inscrição. Perdi a fila para fazer.
Eu fico por lá, ouvindo, sem saber direito o que dizer. E quando falo, sempre parece algo estranho.
"- Tu é velha demais para a idade, Lorem. Parece que tá no fim dos dias."
"- Tu não cresceu ainda não, Lorem? Como se anima com coisa de pirralho."
Talvez esteja tudo bem ser assim. De um dia querer pular na piscina de bolinha com meus sobrinhos e ficar maravilhada com a imaginação fantástica deles, ou apreciar um cafezinho conversando sobre a vivência do senhor da banca, na tranquilidade.
Não me importo mais de ser a estranha que só ouve por não saber o que dizer. Aprendi a ser uma boa ouvinte ao longo dos anos.
Me acostumei a ser jovem demais para ser tão velha e velha demais para ser tão criança.

Lorem Morais

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O quadro e a parede



Para os que me perguntam - repetidamente - sobre meus relacionamentos (a ausência de um na verdade).

“As pessoas vão a sua casa e perguntam porque você não tem um quadro na sua parede. Afinal, toda parede precisa de um quadro. Sem um ela fica vazia, fica estranha. Não são aceitas paredes sem quadros.
Você gosta da sua parede sem quadros, acha que ela fica bonita sem um. Com espaço, limpa, descomplicada.
Ainda assim você vai para uma exposição de arte. E durante sua visita, você consegue admirar a beleza dos quadros. Suas cores, suas formas, suas vibrações. Você fala o quanto eles são belos para a pessoa ao lado, pergunta-se o que o criador pensou naquele momento. No entanto, quando pensa no quadro na parede da sua casa, você percebe que por mais belo que ele seja, não combina com a pintura ou com os móveis. 
Não...não exatamente com a pintura e os móveis, é um belo quadro, você pode mudar o ambiente por ele, se quiser. Na verdade o quadro não combina com você.  Você não sente vontade de levá-lo.
Você vai a outras galerias, buscando aquele quadro que vai combinar com sua parede, com você. Nunca encontra. Vibrante demais, obscuro demais. Esse outro você teria que mudar toda a casa que você adora. Esse outro ocuparia espaço demais.
Há uma parte de você que admira a beleza deles, mas é uma beleza sem significado realmente. E você não quer algo sem significado na parede da sua casa, que você tanto gosta.
No fim você volta para casa sem quadro algum. Abre a porta, joga as chaves na mesa, encara sua parede e no que as pessoas veem vazio, para você há um espaço em branco repleto de possibilidades. Você gosta de pensar olhando para aquela parede. Ela combina com sua personalidade. É sua parede. Você faz o que quiser com ela.
Se não quer um quadro, não vai colocar lá só para que os outros sintam-se mais à vontade quando lhe visitam. Não faz sentido nenhum.
Sua parede.”

 Lorem Morais

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terça-feira, 26 de novembro de 2019

O crime cometido contra o tempo



Lorem Morais
Desperdiçar o tempo é algo que não tem volta, que quando passa não tem remédio para trazer de volta.
Quando eu tinha meus 14, 15 anos, não entendia bem esse conceito. Como eu entenderia? Quando se é jovem você acha que vai viver para sempre, ou ainda, que as pessoas que você se importa vão sempre estar por perto.
Depois que você entende que não é assim funciona, é obrigado a entender a finitude e, assim, a importância de apreciar as pessoas.
  Apreciar de verdade, em cada pequena coisa. Se você tiver sorte você aprende isso antes que elas sumam - sejam tiradas - de perto de você. Aquele abraço de boa noite, aquelas conversas ao redor da mesa. 
Aquelas cobranças "chatas", aquelas intimações de avisar se chegou vivo em casa. Aquelas pequenas coisas que você por vezes nem nota, mas que vai sentir falta quando elas sumirem de repente.
O quão triste é passar a vida toda não apreciando isso, achando que você terá tempo?Quando tudo se acalmar.Quando as provas acabarem.
Quando chegarem aquelas férias.
Quando tiver tempo.
Sempre tempo.
Uma verdade: Você tem tempo agora. Até que de repente você não tem mais.
Outra verdade: Eu queria ainda ter tempo com todas as outras pessoas que perdi. E eu perdi muitos.
Mais uma verdade: Ás vezes você perde as pessoas para a morte, em outras você perde elas para a vida vida. Nos últimos anos eu venho perdendo para os dois
.Eu não sei quando eu percebi finalmente aquele relógio em cima da cabeça das pessoas.  Quando eu passei a entender que as pessoas com quem me importava não eram imortais? Ou que se cansam de esperar por mim enquanto eu esperava por Deus sabe o quê?
 Isso é importante. Entender sobre o peso das coisas que você não fala, ou o tempo que você perde não apreciando nada, só aguardando o tempo certo.
 Como você pode esperar o tempo certo enquanto perde o agora?
Perder tempo é um crime. Um desperdício de algo que muitos dariam tudo para ter de volta. 
Então não percam tempo, não esperem pelo tempo para curar nada, não desperdicem algo que é tão limitado. Não cometam esse crime. 
O tempo não cura, o tempo não espera, o tempo apenas passa.  

Inkspired


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Leme


Sempre estive à deriva,
flutuando sem rumo, guiada por um vento que ninguém mais parecia sentir.
Um dia encontrei minha âncora e pela primeira vez me senti firme no lugar.
Parecia o certo, parecia concreto.
Até eu sentir falta do vento.
Até eu perceber que o que me firmava, me prendia.
O que me assegurava, me segurava.
Era doloroso sentir o vento e não poder o seguir.
Eu nunca precisei de uma âncora, percebi.
Eu precisava de alguém que me ajudasse a navegar. 

Lorem Krsna

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Em algum universo

  Ás vezes eu tenho essa sensação estranha que estou vivendo uma vida que não é minha. 
 Tipo, que em algum momento eu virei errado a esquina, e alguma outra eu que virou a certa está na vida que devia ser minha, em algum universo.
 Eu olho para trás e não me reconheço, e por vezes eu nem sei se sou uma pessoa melhor ou pior do que antes, porque estou diferente demais para comparar.
 Eu fico pensando em loop nas coisas que podia ter feito. 
 E não adianta pensar em nada disso, porque não tem volta, é minha politica não esquentar com coisas que não posso mudar. Ainda assim eu me pego pensando.
 Pensando nessa eu, em algum universo, que pode estar vivendo essa vida diferente. Talvez melhor, talvez pior. 
 Talvez pensando a mesma coisa. 
[eis o motivo da minha insônia] 
 Lorem Krsna

segunda-feira, 25 de março de 2019

Eu não sei se já me apaixonei.



Lorem K Morais
Eu não sei se já me apaixonei.
É, eu sei, estranho vindo de alguém que fala tanto sobre o amor, mas ainda assim é verdade.
Eu não sei se já me apaixonei, ou se tudo foi fruto de uma profunda admiração por uma pessoa (ou pessoas) que passaram em minha vida. 
E eu já encontrei tantas pessoas a quem admirar: a inteligência, a resiliência a capacidade de ser e se doar sem medo. E voltando nesses momentos eu percebo com uma clareza estranha que o pensamento mais frequente não era 'Eu quero estar com você', mas sim 'Você é como eu quero me tornar.'
Não, não. Não me entendam mal. Não sou uma ladra de identidades, como um antigo filme que assisti anos atrás. É aquela inspiração, sabe? Tem gente que gera isso na nossa alma. 
Eu me inspiro por pessoas.
Mas me apaixonar por elas?
Isso nunca sei.
A verdade é que nunca senti necessidade de alguém, nem sexualmente nem romanticamente na minha vida. Nunca veio aquele anseio. Eu nunca senti as tais borboletas, ou perdi a cabeça, ou me iludi (e como eu queria!). Sempre foi aquilo de tentar fingir, para parecer 'normal'. 
Hoje eu vejo como fui boba. Namorando por namorar. Falando sobre 'crush' e paixões que nunca aconteceram, mesmo que quando as palavras deslizam dos meus dedos sobre isso, por alguns segundos pareça tão real. 
Eu falo do amor como se fôssemos velhos amigos, mas a gente só se conhece por amigos em comum. A gente meio que ouve falar um do outro, e eu ouço tantas coisas sobre ele que sinto como se ele e eu nos conhecemos por muito tempo.
Ainda assim ele sempre fica na outra mesa no bar, enquanto eu fico no balcão observando. A gente só flerta de longe, mas nenhum quer nada com o outro.
Entende?
Como eu disse, nunca senti necessidade. 
Houveram outras necessidades. 
O anseio por companhia e uma conversa ou outra entre o café. Pessoas de quem lembrava no meio do dia ao ver algo aleatório, ou a quem dediquei poemas sobre o que foi e podia ter sido. 
Quando olho para trás, eu sempre consigo dar uma boa risada em como eu tentava - e por Deus, eu tentava - me encaixar. Sentir. Com um desespero de alguém que temia tanto se descobrir...vazia.
Não, eu não acho que já me apaixonei. Eu tentei me apaixonar, principalmente com a ideia do amor. 
Hoje eu vejo como bobagem. Como algo que se vier, se for por bem será bem-vindo, se for para não ser, que deixe a porta aberta ao sair.
E se não for para ser? 
O medo do vazio não me incomoda mais, não com tudo que hoje preenche cada espaço da minha vida. Das minhas conquistas até os meus melindres. Eu venho bebendo a vida, por vezes ela me desce rasgando como tequila, por outras é doce como chocolate quente.  Na maioria das vezes ela é como café. 
Como me sentir vazia, se a vida ocupa tanto espaço?
Aí, talvez eu tenha me apaixonado afinal.
Por viver. 
E está tudo bem ser assim. 
Ás vezes você mesmo é o que te basta. 

sexta-feira, 22 de março de 2019

Desbote


Não me desbote
Me desmanche
Ou me desconstrua.
Me deixe ser em minhas cores vivas, em meu vigor.
Não, não me desbote
Para que eu caiba em sua paisagem.
Não me dilua
Até que eu seja como você quer.
Se minha cor, vibrante e forte
Não combina com tua paleta
Não me misture e me torne outra.
Apenas me deixe ir, inteira, viva e completa.
Não me desbote.

Lorem Krsna

Um cemitério de estrelas


O céu é um cemitério de estrelas
Em sua forma lindamente trágica
Ao qual você olha e olha e tudo o que vê
É uma foto do antes.
Uma foto que vai estar lá
Talvez por anos e anos depois que você for embora.
Lorem Krsna

Vasculhe

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