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domingo, 5 de maio de 2013

Leite quente


"As pessoas esquecem o que é ter sete.
Vou dizer, minha infância foi boa demais: tomar banho de chuva, mergulho no mar, jogo de futebol no gramado e queimado na pracinha com amigos e rivais do bairro.
Acordar sete da matina para tomar nescau e assistir ursinhos carinhosos. 
Aguardar disney cruj, e as festas juninas no mês das quadrilhas, buscando seu par. 
Quando ficava doente, lá vinha a famosa canja, cafuné, e o famoso kit adoentado: cream craker com guaraná. Se for muito amado, rolava um passatempo, para ciúmes dos irmãos.
Eu vivi tudo isso. Eu vi muita chuva caindo com a boca para o céu, e assisti o pôr-do-sol tocando violão na praia. Eu já voltei pra casa da escola conversando com o menininho que eu gostava, e fingi que estava irritada quando ele disse que gostava de mim.
Eu briguei e brinquei com meus irmãos, e foi quando estava com eles que senti que estava mais feliz e completa. Já ouvi que era amada, e disse também, e isso é único quando real. Meus pais já disseram que se orgulhavam de mim, e isso vale cada noite mal-dormida.
E eu lembro bem o que foi ter sete, oito, dez, treze anos. Lembro bem de como é ter quinze anos e sentir que o mundo está contra você, e ter dezenove e sentir que é hora de conhecer o mundo, e apanhar bastante. E sei o que é ter vinte e perceber que você não sabe de nada, mas tem tudo para descobrir, basta abrir os olhos, correr atrás, buscar lugares, pessoas e a si.
Eu posso ter pulado etapas. Mas não fui privada de nada."

Lorem Krsna




terça-feira, 9 de abril de 2013

Como um gole de tequila



"Talvez eu ande mesmo pensando em muitas coisas que não posso compreender nunca. Ou simplesmente ande nadando contra a maré. Dizer que é difícil seria amenizar a situação, mas embora seja ruim escalar por cima de todas as coisas que encontro pelo caminho, não posso dizer que a vista aqui de cima é ruim. Na verdade, é tudo claro. Principalmente depois de tanto tempo no escuro. É bom poder ver o sol de cima dessa pilha só aumenta.
Talvez eu ande mesmo escolhendo o caminho mais complicado: Rindo das piadas mais sem graça, mesmo quando a vida parece não querer fazer questão que eu veja graça nenhuma nas coisas.
E no entanto, não posso dizer que não sou feliz de forma ocasional. Tudo é tão efêmero, como a quentura de um gole de tequila na noite fria. Esquenta, mas me deixa tonta  e sempre vem o depois. Essas coisas loucas, esse meus momentos de rompante, são divertidas, mas passam. Eu quero hoje algo mais duradouro. Algo que possa deixar uma marca que não seja uma cicatriz.  Eu quero sentir calor, mas sem a ressaca que vem depois. "

Lorem Krsna

domingo, 3 de março de 2013

Só talvez

Fonte

Ok! Talvez eu tenha sentido sua falta mais do que diria, do que o tempo permitiria, e que caberia em uma vida. Sabe, um pouquinho todo tempo, de modo ligeiro, rasteiro...
Talvez eu tenha me pegado rindo pensando em você, de vez em quando e sempre. Pensando no que diria naquele instante, em suas frases absurdas que me tiravam do sério.
Talvez eu tenha gostado mesmo de você, e esse seja o motivo da melancolia, o nome bonito de dizer que sinto sua falta e isso me deixa triste, amuada, e que as vezes, por isso, não consigo estar perto de ninguém, por que ninguém é você...
Lorem Krsna

terça-feira, 22 de março de 2011

O labirinto do Fauno



                                     



Há algum tempo, recomendaram-me o filme O labirinto do Fauno, pois acreditaram que me identificaria com o roteiro. A princípio acreditei que fosse um conto de fadas, e vi que estava totalmente enganada.
A história se passa após o término da guerra civil na Espanha, por volta de 1944. Ofélia (Ivana Baquero) é uma menina que vive entre a realidade e os livros de contos-de-fada. Sua mãe Mercedes (Maribel Verdú) após a morte do marido, um alfaiate, casa-se novamente, com Vidal (Sergi López) um oficial inescrupuloso e cruel. Mercedes espera um filho de Vidal, e quando aproxima-se a data do nascimento da criança mãe e filha partem para a colina onde os oficiais tentam sufocar os últimos grupos armados que combatem contra o novo regime fascista. Vidal acredita que um filho deve nascer perto do pai, e por isso trás a mulher a todo custo, mesmo com o perigo eminente da situação.
Logo de inicio, percebe-se que ele trata a enteada como lixo.
Entre o perigo da perda da mãe, o medo do padrasto, a solidão e o isolamento Ofélia encontra um labirinto místico, e ao adentrar nele vê um fauno que a reconhece como Muana, uma princesa que se perdera há muito do subterrâneo mundo onde reinava, e que após a morte teria de retornar com outro corpo, para onde era esperada por seu pai. O fauno (assustador por sinal, em minha opinião) então lhe diz que para voltar a seu verdadeiro mundo, Ofélia teria que passar por três provas para mostrar que sua alma não havia se tornado impura.
E as aventuras começam.
Enquanto Ofélia cumpre suas provas, os combatentes do regime são ajudados por Carmem (Ariadna Gil), irmã de um dos combatentes e criada de Vidal, que se torna amiga de Ofélia. Uma mulher forte e decidida, que ama a menina e a protege.
O perigo ronda Carmem e quem mais ajuda os rebeldes.
E ronda Mercedes, que tem uma gravidez difícil.
E em meio a torturas de combatentes lideradas por Vidal, Mercedes morre ao dar a luz e Ofélia se vê sozinha contra a fúria do padrasto que descobre a traição de Carmem e a fuga que as duas fariam juntas.
Carmem consegue fugir da tortura, e promete voltar com reforços para ajudá-la.
E é então que o fauno lhe mostra a ultima prova: levar seu irmão para o labirinto.
Ofélia o faz, e é perseguida por Vidal, ao mesmo tempo em que os rebeldes invadem o acampamento e matam oficiais.
No labirinto, Ofélia se vê diante de uma escolha: para retornar a seu reino, terá que derramar o sangue inocente do irmão. Ela então nega e renuncia a seu trono para não machucá-lo, e é então que chegamos há uma parte surpreendente do filme, quando Vidal chega ao labirinto e vê a menina conversando... Com o nada. Ele toma a criança de seus braços e atira em Ofélia, que cai agonizante.
Quando saí do túnel, Vidal se vê cercado pelos combatentes ao lado de Carmem. Ele entrega a criança e tem seu final merecido (mais que merecido! Hum! ), morre com um tiro na cabeça, não sem antes ouvir Carmem falar que o filho não saberia sequer o seu nome.
Os combatentes procuram Ofélia e a encontram morrendo...
No seu inconsciente, Ofélia se vê dentro de um grande salão real, vestida como uma princesa e em frente a o rei, a rainha representada por Mercedes e seu irmão.
Seu pai dá bem-vinda a filha, e diz que ela cumpriu sua última prova: derramar seu próprio sangue para proteger um inocente, e por isso é aceita de volta a seu mundo e reino, tomando o lugar que lhe foi devido.
O fauno e o povo aplaudem e Ofélia sorri...
... Enquanto morre no labirinto, nos braços de Carmem que canta para ela.

Ofélia e a fantasia

"Dizem que há muito, muito tempo no mundo subterrâneo, onde não existem nem a mentira, nem a dor, vivia uma princesa que sonhava com o mundo dos humanos. Ela sonhava com o céu azul, a brisa suave e o sol brilhante. Um dia, enganando toda a vigilância a princesa escapou. Uma vez no exterior a luz do sol a cegou e apagou de sua memória qualquer indicio do passado. A princesa esqueceu quem era e de onde vinha e seu corpo sofreu com o frio, a doença e a dor. E com o passar dos anos ela morreu. Entretanto o seu pai, o rei, sabia que a alma da princesa retornaria. Talvez em outro corpo... em outro tempo... em outro lugar. E ele a esperaria até seu último suspiro, até que o mundo parasse de girar..."

A morte de Ofélia foi uma das partes mais emocionantes e surpreendentes da história, e deixou no ar dúvidas propositais que fazem o telespectador pensar: Afinal, teria Ofélia de fato vivido tudo aquilo no labirinto, passado pelas provas? Ou ao contrário, teria tido ela um episódio psicótico (o que explicaria o fato de Vidal não ter visto o Fauno no labirinto conversando com ela) ? E caso tenha sido este o caso, como se explicaria o fato de ela ter conseguido sair do quarto em que estava trancada, usando apenas giz? E a mandrágora? A previsão da morte da mãe? Teriam sido estes fatos apenas criados por sua mente devido as circunstâncias?
São coisas a se pensar.
Desde o inicio percebe-se que Ofélia é uma sonhadora, personalidade criada talvez para fugir da situação complicada, e do medo frequente a que estava submetida. Como vivia em um mundo inseguro, ela então criou o seu próprio em que era uma escolhida, onde alguém a esperava. Onde teria, em como os contos em que lia um final feliz ao lado dos que lhe eram caros.
Mas qualquer que seja a verdade, ou o que ou não ocorrera, o fato é que Ofélia é uma personagem que reflete o sonho que emerge em meio a ruína. A fantasia e a magia em meio ao caos da realidade, e isto se demonstra em várias cenas em que parte-se da narrativa da menina em meio a cenas duras entre combatentes e torturas. Ela era, de certo modo, a rosa no meio do pântano.

"E dizem que a princesa desceu ao reino de seu pai, e que lá reinou com justiça e bondade por muitos séculos. Ela foi amada por seus súditos, e deixou para trás pequenos sinais de sua passagem pelo mundo, visíveis só a aqueles que sabem onde olhar.”

Vidal e a realidade

Vidal na história representa o mal, a falta de escrúpulo e a alma humana corrompida pelo poder. enquanto Ofélia seria a "pureza", ele seria toda a sujeira, e de certo modo, a realidade que faria contra-peso a fantasia que ele criava (ou/e vivia).

O Fauno e o bem e o mal

Por diversos momentos no filme, cheguei a duvidar se o Fauno representaria o bem ou o mal. Há uma passagem em que Carmem diz que não se pode confiar em Faunos, e quando ele pede que Ofélia machuque o irmão então chegamos a pensar que ele é o mal na menina.
Mas no fim, tudo não passou de um teste para saber até que ponto Ofélia chegaria.
A meu ver, o Fauno na verdade agiu como a consciência da própria Ofélia. Ele lhe deu as possibilidades, e ela faria as escolhas.

Carmem e o Doutor

São personagens secundários, mas que ao meu ver de Vital importância na história.
O que você faria para ajudar ao próximo? Até que ponto você chegaria por uma causa?
Há uma passagem que explica em suma a personalidade do médico ( interpretado por Alex Angulo), em que ele prática a eutanásia em um combatente torturado para livrá-lo da dor e de novas torturas que lhe seriam impostas. Vidal então lhe pergunta por que ele não o obedeceu, este lhe responde que "Obececer por obedecer, assim, sem pensar, só o faz gente como o senhor capitão". E o Vidal o mata com um tiro pelas costas.
Carmem, em toda a história ajuda os rebeldes. Ela é guerreira, e vai até as últimas consequências para proteger quem lhe importa, chegando até a tentar matar-se para impedir entregar os amigos sob tortura.
Ambos representam a realidade, no que há de integro nela. Mesmo que como Vidal eles tenham uma causa, eles não se corrompem, e como o próprio médico citou "não obedecem por obedecer".

O Filme

O labirinto do fauno foi um dos melhores filmes que já assisti. Escrito e dirigido por Guillermo Del Toro, é uma mistura de fantasia e realidade tão intricadamente interligadas que se confundem.
Pode-se pensar em diversas teorias (realidade V.S fantasia), que vai pela interpretação de cada um. Mas não há dúvida de que o filme é uma excelente obra, no sentido visual e no roteiro.
As cenas de tortura, da morte de Ofélia e do médico são emocionantes... revoltantes.
E a trilha musical é também cativante, proporcionada por Javier Navarrete.
Em suma, é um filme que recomendo, para todos e qualquer um que queiram assistir a algo tocante, e surpreendente.

Lorem Krsna

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